Desvendando [UNRAVEL]
Animelancolia apresenta...
Desvendando [UNRAVEL]
Uma súplica para que ele possa ser esquecido. A vontade de ser lembrado. Desejos. Lembranças. Confusão. Unravel é uma letra caótica e perturbadora. Durante uma entrevista conjunta com o mangaká Sui Ishida, o músico Tooru Kitajima (TK) revelou que sua ideia ao compor Unravel era criar uma música a partir do vazio dentro dele mesmo. TK conta que, ao criar algo, ele sente que cava tão fundo dentro de sua mente que não sobra mais nada. Era esse sentimento que o compositor queria imprimir na canção. Unravel é uma música sobre encarar esse vazio, já que o próprio TK declara, ainda nesta mesma entrevista, que se esse vazio fosse tirado dele, realmente não sobraria nada.
Os sentimentos de TK espelham perfeitamente a trama de Tokyo Ghoul e o lamento do Ken Kaneki. Esse é o primeiro segredo do que faz Unravel ser inesquecível. Os trechos da música se sobrepõem entre partes em que o eu lírico lamenta seu próprio infortúnio em estar quebrado e partes em que se pergunta se não seria todo o mundo quem está quebrado. Enquanto faz questionamentos que enfatizam uma realidade despedaçada através de sua crise de identidade, é apenas no fim da música que é revelado para quem são direcionadas tais perguntas. "Me diga, então me diga: Tem alguém aqui dentro de mim?". Alguém dentro de mim está desvanecendo meu mundo? Ou será que eu simplesmente sou vazio?
Embora a letra de Unravel seja muito densa, o segredo da sensação de desconforto que a música transmite está na complexidade de seus arranjos. TK é um artista completo com muito conhecimento musical. Cantor, compositor, arranjador e produtor. Seu talento já foi demonstrado em várias áreas da criação de músicas. Em Unravel, o vocalista do Ling tosite sigure aplicou toda a sua experiência para criar uma canção que, sim, pode manipular seus sentimentos. Por isso, é comum a música despertar sensações de vulnerabilidade nas pessoas.
Os arranjos da canção são todos bem pensados para passar um sentimento específico. Sites de teoria musical, como o Hooktheory, destacam a forma que Unravel percorre escalas menores e maiores completas em partes específicas da canção. Toda a parte instrumental reflete momentos de turbulência e descontrole emocional, como se fosse a escala emocional de uma pessoa alternando entre a euforia e a depressão. Em alguns trechos, os arranjos percorrem a escala de Sol menor (G menor), que é majoritária na música. A introdução da música, no entanto, passa por toda a escala do Si maior (B maior).
Foi necessária realmente muita pesquisa para que eu pudesse descobrir o significado desses arranjos em Unravel. E a chave para entender o que faz a canção evocar esse sentimento belo e desconfortável está exatamente em seus tons menores e em suas transições drásticas para tons maiores. Os picos melódicos de Unravel foram compostos principalmente em Sol Menor. Existem algumas culturas que percebem tons menores como alegres e tons maiores como tristes, mas na percepção da maioria das pessoas e suas culturas musicais, a relação é entendida de forma oposta. Tons menores são associados a sons tristes, enquanto tons maiores remetem a sons alegres.
De forma geral, músicas em Sol menor tendem a passar sentimentos de melancolia. É um tom dramático, introspectivo e emocionalmente pesado. Mas mesmo os sons em escalas maiores presentes na canção não passam sentimentos positivos, pois, nesses momentos, a voz do TK está baixa ou mesmo sussurrada e os instrumentos estão muito baixos ou muito altos em relação ao tom geral da música. Os arranjos também estão ordenados de forma diferente daquilo que costumamos interpretar como sons alegres. Portanto, os tons maiores em Unravel podem ser compreendidos como períodos de estabilidade mental do eu lírico, quando ele reflete sobre o que pode fazer sobre sua realidade. Já os tons menores representam períodos de instabilidade, em que o eu lírico está consumido pela depressão. Devido ao tom triste e questionador da música, podemos interpretar essas variações como melancolia passiva e melancolia ativa, que é quando a revolta contra o mundo desperta dentro do eu lírico.
Existem diversas pesquisas no campo da neurociência que ilustram como o campo harmônico menor estimula áreas específicas do cérebro associadas à liberação de neurotransmissores como a dopamina. O campo harmônico menor atua em áreas como o estriado direito, uma região central para o processamento de recompensa e emoção, e na amígdala, uma área do cérebro ligada ao medo e emoções intensas. Por isso, é comum que as pessoas entrem em estado de introspecção e tensão ao ouvir tons menores, como uma resposta do estímulo da música no cérebro.
A introdução de Unravel começa sem som algum, seguida pela voz aguda, lamentosa e sussurrante de TK. Após isso, a música apresenta acordes baixos, causando efeito de atenção no ouvinte. Quando a música parece seguir por esse caminho, a composição apresenta outra técnica chamada mistura modal. Ou seja, a combinação de tonalidades menores e maiores em uma mesma peça. Isso visa refletir a complexidade das emoções humanas expressas na canção. Por exemplo, em Unravel, isso acontece de maneira muito marcante no ápice emocional da música, quando o eu lírico grita a frase: "unravelling the world" e toda a música assume uma nova tonalidade.
Aqui os tons estão misturados. Apesar do personagem da música estar gritando em uma aparente quebra mental, isso está intensificado pelas diferentes misturas dos arranjos, refletindo a vulnerabilidade do eu lírico. Isso aumenta ainda mais a ansiedade do ouvinte. A parte instrumental de Unravel é composta de maneira dinâmica para espelhar respostas neurológicas no ouvinte. Isso fica ainda mais evidente na parte final da música. Depois de ouvirmos todos os lamentos do eu lírico, a música volta para a mesma frase de abertura: "Oshiete, oshiete yo / Boku no naka ni dare ga iru no?" ("Me diga, então me diga / Quem está dentro de mim?"). Em linguagem musical, esse retorno ao acorde inicial é o que se chama de resolução no acorde tônico. A técnica que TK usou aqui foi terminar a sequência de acordes voltando para o primeiro acorde. Assim a canção termina com tendência à estabilidade e dá ao ouvinte a sensação de conclusão, apesar de se tornar um ciclo sem respostas.
Em uma trilha sonora de uma peça de ficção, fragmentos melódicos como esse são o que chamamos de leitmotiv, que é quando um tema musical é recorrentemente ligado a personagens, locais ou ideias. Apesar de Unravel não ser o tema oficial de Kaneki, a música é fortemente associada ao personagem. Dessa forma, instrumentalmente, Unravel se torna ainda mais marcante pela maneira como reflete os fortes traços psicológicos do protagonista de Tokyo Ghoul e conecta isso às respostas neurológicas dos ouvintes. Quando essa ativação acontece em áreas do cérebro, isso torna a memória musical relacionada à trama ainda mais carregada de emoção. E como a letra da música oferece apenas perguntas sem respostas e lamentos sem soluções, o vazio que a música deixa permanece por alguns instantes após sua conclusão.
TK provou ser um excelente arranjador ao compor Unravel. Uma música carregada de técnicas musicais para criar uma atmosfera psicológica que reflete o medo e a solidão que Ken Kaneki sente. Mas, claro, a performance vocal de TK também é parte essencial do que torna essa canção especial. Enquanto compositor e letrista, TK é um artista profundamente autoral. Mesmo ouvindo músicas que ele produziu e arranjou para outros artistas, sempre é possível sentir a assinatura dele em várias partes de cada canção. Apesar disso, um ponto muito forte de suas composições para outros cantores é a forma como os tons dos arranjos conversam perfeitamente com o tom vocal que representa a canção.
Isso também significa que muitas das canções do TK pelo Ling tosite sigure ou mesmo em carreira solo são feitas para se encaixarem perfeitamente ao tom específico de sua voz e suas técnicas vocais. Unravel, claro, é um exemplo disso, embora essa seja mais desafiadora. Músicas em Sol menor e em escalas menores são mais adequadas para vozes de barítono e de tenores. A tessitura vocal do TK é de contratenor, ou seja, voz masculina aguda. Para que essa tessitura se encaixe de maneira tão natural em Unravel é necessário que o cantor use bastante a voz de cabeça e a voz de peito. Algo que o instrutor vocal Chris Liepe explica bem em suas análises da música:
Interpretar uma música pouco confortável para sua tessitura é uma escolha artística por parte de TK. Então, ele usa suas técnicas vocais e seu amplo conhecimento para alcançar a naturalidade necessária e expressar as emoções da música em cada uma de suas partes, indo de uma voz sussurrante, que reflete o tom lamentoso de Unravel, e chegando em registros mais agudos nas partes da música em que o eu lírico soa mais desesperado.
A performance de TK é o que conduz a densidade emocional de Unravel. Seus tons, ora quase sussurrados, ora gritados, amplificam a densidade sentimental que a música gera. Em vez de adaptar sua voz para soar mais grave o tempo todo, o compositor adaptou a melodia às nuances de sua voz. Isso fica bastante evidente quando a Unravel de TK é comparada a algum dos muitos covers da música, executados por distintos tons vocais. Uma versão que serve perfeitamente para exemplificar isso é o cover feito pela notável musicista Ado. A voz grave dela é perfeita para executar uma música com um campo harmônico como o de Unravel. No entanto, a belíssima versão de Ado passa sentimentos bem diferentes daqueles transmitidos por TK, mesmo ambas sendo executadas a partir dos mesmos arranjos.
Em uma voz grave e poderosa como a de Ado, a música ganha tons de revolta ativa, se rebelando contra a resignação natural da letra da música. Pela voz do TK, Unravel ganha esse tom mais harmonioso e propositalmente instável nas partes mais intensas. É o que cria o sentimento de vazio e vulnerabilidade que TK queria passar ao criar Unravel. Portanto, o que faz a canção ser especial, o que este texto tentou desvendar, é a completude da potência do que o TK intencionava ao compor tal obra-prima. Espero que você tenha aproveitado a análise. Foi um texto intenso de se escrever e de pesquisar, mas acho que Unravel é uma canção que tem tudo a ver com o meu blog, o Animelancolia: algo que aborda temas melancólicos, mas que sempre questiona essa melancolia. Eu realmente amo Unravel.
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Texto escrito por: Maviael Nascimento, maquinando maneiras de se tornar legal igual ao Tooru Kitajima
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Outros posts: Paradise Kiss Contra a tradição... da contradição / Bakemonogatari Em Perspectivas / Komi-san wa Komyushou Desu: Arco da Rei
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Biblioteca de referência:
Entrevistas
• Interview with TK from Ling tosite sigure | Have You Heard? (Crunchyroll Presents)
Análises musicais e vocais
• HOW Is Unravel From Tokyo Ghoul THIS Good? (Henric Gallardo)
• First time hearing TK "Unravel" (original version Reaction & ANALYSIS) (Chris Liepe)
• First time Reaction & Vocal ANALYSIS for TK from 凛として時雨 - unravel / THE FIRST TAKE (Chris Liepe)
• Tokyo Ghoul on Ice (ANIME ON ICE)
Neurociência & música
• Como a música afeta a química do seu cérebro (Super Nutridos)
• Effects of familiarity with musical style on music-evoked emotions: An EEG study (OSF)
"Wikipedia"

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