Mise en Scène em NANA
Animelancolia, em uma homenagem à Ai Yazawa, apresenta:
Ai Yazawa The Perfect Vision
- Capítulo 3 -
A inserção de pequenos elementos na composição de cena de uma obra visual pode tornar um belo momento em algo que ficará para sempre dentro da memória. E então, eu me pergunto quantas dessas sutilezas seriam necessárias para tornar a adaptação em anime de NANA ainda mais poderosa que o mangá original da autora conhecida pelo seu empenho em causar impacto visual, e ainda em uma obra carregada de moda punk, vestidos dos anos 70 e 80, Vivienne Westwood e uma dose exata de rebeldia jovem do começo dos anos 2000. Bem, para toda a equipe do produtor Masao Maruyama, que claramente colocou uma quantidade comovente de dedicação para fazer de NANA uma adaptação digna de seu status, a resposta é "todos os detalhes possíveis".
Para ilustrar o que eu quero dizer nesse texto, proponho analisarmos aquela que considero a cena que melhor exemplifica as possibilidades que uma adaptação em anime pode fazer ao captar e tentar amplificar a beleza daquilo que está sendo adaptado. Vamos dar uma olhada detalhada na cena em que a Nana canta pela primeira vez no apartamento 707; ou, nas palavras da Hachi, "a magia que a Nana é a única pessoa no mundo capaz de proporcionar", mas que eu acredito piamente que a produção artística do anime também fez os seus encantos mágicos:
Com esse vídeo na mesa (trocadilho intencional), podemos enfim começar a destrinchar os pormenores escondidos e as mudanças entre o anime e o mangá.
Em uma composição de cena, os elementos de cenário podem cumprir a função de ponto visual. Uma bússola para os olhos do espectador. Mas em uma obra com tantos objetos que carregam toda uma simbologia própria e que se tornaram icônicos nas memórias dos fãs, esses mesmos elementos de cenário transformam-se em um pilar que sustenta parte do peso dramático da cena. A mesa em que Nana canta foi inserida desde o começo da obra, na capa dos volumes 1 e 2 do mangá e na primeira cena do anime. Ela representa tanto as boas memórias da amizade das Nanas quanto a solidão e saudades que a Hachi sente com a partida da Nana. Para fãs apaixonados como eu, essa mesa também representa as mesmas coisas: o saudosismo e a resiliência pelo fim de uma longa, longa espera. Por isso, sim, esse elemento de cenário é uma parte vital da iconografia desta cena. Créditos à capacidade infindável da Ai Yazawa em criar drama de impacto.
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Capas dos volumes 1 e 2. |
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Primeira cena do anime |
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Statue-Nana-Weare A Design X Nishathenerd |
Algumas diferenças consistem na transição de mídia. Esse é o momento em que o anime transpõe as limitações do mangá. Nesse ponto, duas qualidades da cena se destacam. A primeira é o enquadramento que sempre faz a imagem da Nana parecer gigante. Enquanto isso, os ângulos fechados no rosto da Hachi sugerem que esse "efeito de grandeza" se deve tanto à admiração da Hachi quanto às emoções despertadas pelo canto da Nana. A iluminação também provoca uma sensação etérea, quase imagética à cena.
Outro detalhe ainda mais sutil e que jamais poderia existir no mangá, é a transição quase imperceptível entre a voz falada e a voz cantada da Nana. A escolha de elenco, com Romi Park dublando a personagem e Anna Tsuchiya assumindo os vocais nas cenas musicais, foi tão acertada que muitos espectadores desatentos talvez nem percebam a mudança no timbre. Em obras musicais, é relativamente comum que um mesmo personagem tenha duas vozes distintas, e, em produções audiovisuais em geral, essa prática também ocorre com frequência. No entanto, a forma como NANA executa essa transição de maneira tão natural é um dos grandes méritos do anime.
Na cena no anime, o Yasu está tão envolvido com a música que ele sequer percebe as cinzas do cigarro caindo em seu terno. Depois de um take mostrando uma Tóquio à noite enquanto ouvimos Hachi fazendo o mesmo monólogo do mangá, o foco da cena volta para o escritório do Yasu. A cappella da música improvisada da Nana vira a canção da ending enquanto os créditos de encerramento sobem. O enquadramento impreciso da cena mostra um pequeno pedaço da mesa do Yasu, onde podemos ver várias pastas, papéis, um notebook com a tampa aberta e o cigarro ainda aceso repousando em cima da lata de cerveja (detalhe: no começo da cena podemos ver um papel impresso colado na parede informando que a diretoria do escritório proíbe o uso de cigarro em ambiente de trabalho). A fumaça do cigarro parece dançar no embalo da música, exatamente como os pés do Yasu faziam anteriormente. A tela do notebook exibe um e-mail incompleto que deixa claro que Yasu está no meio de algum projeto importante para sua carreira.
Então, Yasu encerra a ligação do celular, fazendo com que a música pare exatamente quando os créditos da ending chegam ao fim, transformando essa pequena sequência em uma cena pós-crédito. Yasu vai se afastando, indo embora, enquanto tudo o que ouvimos são os sons de seus passos ecoando em um grande escritório vazio. Então, Yasu desliga as luzes, fazendo a escuridão encerrar a cena e o episódio.
Essa última imagem com a silhueta de um escritório vazio banhado pela escuridão, assim como as cenas do cenário urbano da noite de Tóquio mostradas anteriormente, é um uso brilhante de uma ferramenta aplicada sutilmente em mídias visuais: a liminaridade. A antropologia diz que a liminaridade é a qualidade de ambiguidade ou desorientação que ocorre no estágio intermediário de um rito de passagem. Tanto em uma composição de cena quanto nos cenários da vida real, a liminaridade se encontra no limite do que o olho pode ver. É um espaço de solidão, o limiar sensorial.
Nos takes de Tóquio, a cidade aparece vasta e indiferente, pontuada por luzes distantes que reforçam a sensação de separação e isolamento. No escritório de Yasu, essa mesma ideia se manifesta de forma mais íntima: o espaço vazio e silencioso se torna um reflexo da transição interna do personagem. A distância e as semelhanças entre esses dois cenários — a cidade ao fundo e o ambiente pessoal de Yasu — simbolizam o espaço e a aproximação entre mundos, entre presente e futuro, entre a estabilidade de sua vida atual e a incerteza das consequências sobre a decisão que está prestes a tomar.
Em uma leitura subjetiva, todo o significado da decisão de Yasu foi explicitado nessa cena. Em sua próxima aparição na obra, Yasu já estará em Tóquio, às portas do apartamento 707 de um certo prédio antigo. Mas o momento em que ele resolveu largar tudo para viver de música foi inteiramente mostrado nessa brilhante composição de cena – sem o uso de qualquer palavra. Apenas elementos de cenário, ângulos de câmera e a ideia metamórfica da liminaridade representam uma mudança drástica na vida de todos os personagens de NANA. Tudo foi mostrado simplesmente através do mise-en-scène de Ai Yazawa e da equipe do anime.