Eu, Ushio
CLANNAD é uma obra que se apropria magistralmente do estilo artístico do realismo mágico. Esse é um estilo que se consolidou na pintura e na literatura da primeira metade do século XX na América Latina. O realismo mágico, ou realismo fantástico, é a ideia de criar uma realidade social reconhecível transfigurada através da inserção de elementos imaginários, bem como magia, sobrenatural, divino, etc. Porém, a explicação da imagética não deve ser restrita, dependendo apenas do intelecto de quem criou a obra, e abrindo mão do racionalismo, fazendo a ideia aproximar-se mais do naturalismo que do surrealismo.
O naturalismo, por sua vez, é um movimento literário que se concentra nos aspectos biológicos e sociais, retratando as circunstâncias responsáveis pela formação da índole dos personagens, como a influência do meio, raça, hereditariedade e a classe social. Esse conceito em particular é de suma importância em CLANNAD. Sendo dito pelo principal criador da obra, Jun Maeda, que CLANNAD é um muro que ele nunca conseguirá subir novamente, o resultado final da obra, enquanto literatura pop, é algo do qual não há precedentes nem sucessores.
A junção dessas duas correntes literárias em CLANNAD destaca o caráter de sua fantasia como algo que trabalha em prol de seu drama, tornando-se um elemento de menor importância, cujo entendimento completo não é necessário. Pois a aceitação dessa fantasia naquele mundo acontece de maneira natural. Nesse texto, o mais pessoal que já escrevi, minha proposta é interpretar o drama de CLANNAD através da minha própria vivência e exemplificar o quão realista e profunda é a história desse anime.
Desde o seu título até o arco de desenvolvimento de cada personagem, tudo em CLANNAD orbita em torno do tema da família. O nome da obra se origina da palavra irlandesa arcaica "Clann", que significa "família" ou "descendência". Em particular, o protagonista Tomoya é quem mais carrega a ideia de hereditariedade como parte da formação de seu caráter. Tomando parte de um tropo muito específico de visual novels e light novels, o personagem possui uma personalidade cínica, sendo uma pessoa autodepreciativa e desesperançada.
Não apenas aquilo que Tomoya é ao longo da trama, mas também aquilo que ele se torna na segunda metade do ~After Story~, representa o maior medo da minha vida, que escondo por trás de uma imensa quantidade de ódio que acumulei dentro de mim por três longas décadas. Eu mesmo, tendo sido abandonado pelo meu pai quando ainda era um bebê, consigo entender de forma clara como Tomoya se tornou uma pessoa sombria. Mesmo no ponto da trama em que ele deixa a casa do pai e vai morar na casa da família de Nagisa, a presença negativa do pai não sai da vida dele. Não importa se é uma figura com aparência definida ou alguém cujo rosto nunca foi verdadeiramente visto, a ideia da hereditariedade em mim e em CLANNAD é como um fantasma do qual é difícil de escapar.
Mais do que o clássico tropo do protagonista cínico, Tomoya é, na verdade, alguém desesperado — que ajuda as pessoas sem exigir nada em troca, enquanto seus próprios problemas se acumulam. O ódio pelo pai não se dirige diretamente à figura paterna; em vez disso, esses sentimentos voltam-se contra si mesmo, constituindo uma explicação naturalista para a formação do caráter de Tomoya.
No ~After Story~, acontece a Tomoya a mesma tragédia que o pai dele viveu. Ele perde a esposa e se sente sozinho no mundo, apesar de ainda precisar criar uma criança pequena. É quando Tomoya se torna um pai ausente para a Ushio. Então é revelado, de maneira muito sutil, a maior angústia e principal fonte da falta de amor próprio de Tomoya. O medo de se tornar aquilo que ele sempre odiou se transforma em realidade. A genética é algo do qual não se pode fugir. Nem sempre está necessariamente no nosso DNA. Muitas vezes, trata-se de algo enraizado na forma como certos acontecimentos influenciam nossas escolhas. Na minha própria experiência, sempre me foi dito que eu tenho os mesmos traços do pai cuja voz eu nunca ouvi. O mesmo tipo físico, a mesma altura e até o hábito de deixar os cabelos compridos. Secretamente, isso sempre alimentou meu trauma de sequer conseguir imaginar a paternidade como algo possível. Quero sempre continuar sendo a Ushio; não quero me tornar o Tomoya — seu pai — ou o meu pai.
Isso, por sua vez, é algo que surge do receio de não conseguir arcar com o peso de ser responsável pela felicidade de outra pessoa e pela própria felicidade. A partir desse entendimento pessoal, CLANNAD retira o manto da vilania de seus personagens, mas não os isenta das consequências de seus atos. É perceptível que Tomoya não é uma má pessoa, porém, permanece inegável que ele abandonou Ushio em uma fase da vida em que ela precisava dele para conseguir lidar com a ausência da mãe. É nesse momento que a hereditariedade em CLANNAD se revela como um traço psicológico — uma forma de trauma, de medo, de fuga, revelando a natureza da trama como naturalismo.
A corrente do trauma hereditário de CLANNAD se inicia com o pai de Tomoya, Naoyuki. Mas isso só é entendido por Tomoya quando ele é obrigado a se confrontar com o resultado das suas escolhas. Ao se reencontrar com sua filha e tentar pela primeira vez ser um pai de verdade para ela, Tomoya quebra a corrente começando por si mesmo e impedindo que o trauma se torne hereditário em Ushio. Um acontecimento da obra que me faz relembrar que nem eu, nem meus irmãos, nem minha mãe sabemos realmente o que fez aquele homem simplesmente abandonar uma família de cinco membros. Claro que, sem essa informação, sempre irei atribuir o abandono ao seu caráter, assim como Tomoya pensava de seu pai. No entanto, é evidente que eu não sei o que o fez se tornar alcoólatra, ou mesmo o processo de pensamento perturbado que o levou a ir embora sem grandes avisos.
O realismo de CLANNAD não é apenas um espelho no qual reconheço minha vida. A obra também me oferece uma resposta. A parte ruim da hereditariedade transmitida pelo meu pai pode ser rompida. O medo não é uma resposta; o autoconhecimento sim. Dessa forma, posso mostrar que CLANNAD não é necessariamente uma obra erudita; é uma obra cotidiana que retrata, de forma natural, uma grande complexidade.
A pequena Ushio carrega um tipo de representação que ressoa em mim de maneira única. O anime parece ter muito zelo em retratar seus gestos e fala de maneira realista, desde a limitação de vocabulário até o som de sua voz. Partindo das minhas próprias lembranças dos primeiros anos que comecei a entender que a minha realidade era diferente da realidade das outras crianças, sinto uma empatia única por Ushio. Desde sua primeira cena no anime, eu sinto que sua representação de infância é muito mais profunda do que simplesmente parecer uma criança de verdade. Detalhes sutis do comportamento de Ushio revelam a formação de pequenos traços de personalidade que surgiram devido à ausência de seu pai e o luto por sua mãe. Há uma grande curiosidade infantil em descobrir mais do mundo misturada com um certo receio de se aproximar muito das pessoas. Uma certa carência pelo afeto de uma determinada pessoa, a quem ela não consegue expressar seus desejos. São gostos e fixações que a diferenciam das demais crianças de sua idade, assim como foi observado por Tomoya. Muito da personalidade da Ushio remonta minha própria infância, e sinto que isso deriva da experiência da ausência.
O realismo que sinto na Ushio é comovente a ponto de romper um pouco do bloqueio emocional em que eu me encontrava enquanto revia CLANNAD, e que ainda sinto enquanto escrevo este texto. No entanto, além desse realismo, Ushio também figura no centro da fantasia da obra. Perto do fim, é revelado que todos os elementos mágicos presentes na obra derivam da consciência de Ushio. Quando ela morreu sentindo arrependimento por não poder realizar seu desejo, a vontade de Ushio e sua conexão espiritual com a cidade a fizeram criar, inconscientemente, o mundo paralelo que é mostrado desde o começo em CLANNAD, o Mundo Ilusório. Uma realidade que existe de forma paralela e atemporal à história principal.
É em Ushio que se concentram o realismo e o fantástico em CLANNAD. Mesmo sendo um elemento absurdo que faz com que Ushio esteja presente na trama mesmo antes de ela ter nascido, a fantasia em CLANNAD é facilmente aceita por ser um fator menos importante do que toda a humanidade que o anime demonstra. Isso torna o anime um exemplo perfeito do que é a literatura de realismo mágico.
Os pequenos detalhes que revelam a lógica do Mundo Ilusório estão presentes, principalmente, em passagens dramáticas da obra, misturando ainda mais a fantasia ao realismo. A primeira menção direta a realidades paralelas acontece no clímax do arco da Kotomi. Em algumas cenas dos arcos de desenvolvimento da Nagisa, é mostrado que ela carrega a mesma conexão que Ushio tem com o mundo paralelo. Já no arco da Fuuko, é apresentada a manifestação física do poder da consciência no mundo de CLANNAD. Por fim, no arco da Yukine e na formatura de Nagisa, é revelado que as bolas de luz que aparecem ao longo da obra carregam o poder de realizar desejos, mas quase não são mais percebidas, pois estão sempre sendo arrastadas para outro lugar, na dimensão do Mundo Ilusório.
O primeiro contato de Ushio com as luzinhas é quando o anime inicia a conclusão do tema da hereditariedade. Depois que Tomoya se arrepende por ter abandonado Ushio, ele passa a compreender que o desgaste da relação com o pai é algo complexo e profundamente enraizado em ambos. Após se reconciliar e permitir que Naoyuki possa descansar do peso que carrega, uma bola de luz aparece no céu. Esse é o momento em que nasce a conexão de Ushio com a fantasia de CLANNAD. É então que entra em cena a segunda parte da hereditariedade.
Na primeira vez em que Ushio pede timidamente que Tomoya conte a ela como era a Nagisa, ele se irrita com a filha com quem ainda não havia se reconciliado. Isso demonstra o grave estado mental em que Tomoya se encontrava. Essa condição revela que Tomoya estava em depressão há muito tempo. Embora a obra não use termos da psicologia, o protagonista sempre apresentou fortes sinais do que se chama de abstração seletiva — a distorção da percepção em notar apenas as partes negativas de situações específicas. Durante o principal arco de ~After Story~, é revelado que Tomoya desconhece a verdadeira história do pai principalmente porque sua mente suprimiu várias lembranças ao focar apenas nos sentimentos ruins causados pelo alcoolismo do Naoyuki. Mesmo os detalhes que ele sabia sobre sua mãe, cujo nome só foi revelado ser Atsuko nos episódios finais, foram borrados. Outros detalhes, como a sua amizade de infância com Kotomi, também foram esquecidos. Apesar de parecer um elemento fantástico da obra, o quadro clínico de Tomoya, na verdade, se caracteriza pela obsessão pelo pai e os sentimentos de repúdio direcionados a si mesmo.
Apenas depois de receber o perdão de Ushio e tentar compensar pelos anos perdidos é que, enfim, Tomoya conta para a pequenina sobre a mãe dela. Então fica perceptível que o trauma da hereditariedade ocorre devido a diversas causas psicológicas. A depressão altera a percepção ao distorcer a visão de si mesmo, do mundo e do futuro, tornando tudo mais negativo e sem sentido. Claro, a maior parte do declínio mental de Tomoya nasceu do abandono do pai e do incidente que danificou de forma permanente o ombro do protagonista. Mas o sentimento de achar que não merece ser feliz — essa corrente de trauma hereditário — iria se romper em Ushio e poderia ter se rompido em Tomoya também. Bastava ele ter na vida alguém como Sanae, que gravou, no cérebro em desenvolvimento de Ushio, a certeza de que ela tem um pai e que teve uma mãe incrível. Seja como for, a hereditariedade não é unilateral e inescapável.
Por toda a vida, sempre que eu sentia um arrepio percorrer minha espinha ao pensar sobre paternidade, esse sentimento vinha acompanhado de culpa, por ter tais pensamentos, mesmo sendo filho de uma mulher tão incrível. Minha mãe sempre se manteve forte para criar todos os filhos sozinha. Nunca recorreu à violência. Guardou os piores traumas por ter sido abandonada e nunca contou isso aos filhos até o final. Realmente não sei nem mesmo o que a fez se apaixonar por alguém como aquele homem. Ela era uma pessoa tão cativante que muitas pessoas chegaram a passar mal de tanta tristeza durante o seu velório. E no entanto, desde esse dia, em agosto, até agora em novembro, eu continuo com um bloqueio emocional que não me permite sentir isso como é devido.
O desfecho emocional de CLANNAD junta tudo o que foi desenvolvido de realista e de fantástico para apresentar uma conclusão sólida de sua temática sobre a família. Embora a vontade de Ushio tenha dado origem ao Mundo Ilusório e reunido bolas de luz suficientes para realizar um milagre capaz de alterar toda a realidade, a decisão de aceitar ou não uma segunda chance foi de Tomoya. Ele poderia escolher ficar com Nagisa novamente ou deixá-la viver sem conhecê-lo para que possa encontrar outro caminho que talvez a faça mais feliz. Tomoya enfim decide que o verdadeiro milagre que contraria a sua realidade é seguir em frente. A força que os seres humanos possuem é a de afirmar a vida mesmo em um mundo indiferente. O que Tomoya aprendeu ao longo dessa jornada foi que viver é um ato de coragem. O seu costume de fugir, a mania de não ver as coisas em sua totalidade e focar apenas no negativo, não trazem respostas adequadas.
Acima da conclusão fantástica sobressai o realismo presente na brilhante caracterização dessas representações humanas. Sobre como seus medos, traumas, mágoas, mas também suas famílias e amigos, são parte da formação do caráter que os leva a escolher continuar de pé sob uma realidade absurda e incontrolável. Criando assim um final feliz em que Ushio e Nagisa vivem.
Albert Camus, filósofo absurdista que é constantemente associado ao existencialismo, tem uma famosa frase que sintetiza a base do que deve ser o entendimento da fantasia em CLANNAD. Ele dizia que a vida é um absurdo porque há uma profunda desproporção entre o desejo humano de sentido e unidade, e o silêncio irracional e indiferente do universo. Eu interpreto isso como a curiosidade infinita de uma criança explorando um mundo novo, em que só podemos ir contra o absurdo e continuar procurando a explicação por nós mesmos através das experiências da vida e da própria consciência. Por isso, entre tudo que posso ou não ser no futuro, eu escolho ser como uma criança tentando descobrir algo novo, colocando a vontade acima do medo. Especificamente, escolho ser... Ushio.
Texto dedicado à memória de Irene Bezerra do Nascimento (☆ 16/09/1953, ✟ 05/08/2025). Sinto muito por só conseguir expressar meus sentimentos pela sua perda dessa forma, mãe.
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Texto escrito por: Maviael Nascimento
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